A atividade de hoje era analisar nosso espaço cotidiano sob o ponto de vista dos conceitos apresentados por Herman Herztberger no livro “Lições de Arquitetura”. Bora lá!
Demarcações Territoriais
O apartamento onde moro tem um exemplo interessante de demarcação territorial por meio da personalização. O projeto contempla uma espécie de bloco vazado que divide a sala-de-estar e o quarto. Esse bloco pode ser utilizado de várias formas, tanto do lado da sala-de-estar quanto do lado quarto. Pesquisando na internet, encontrei algumas imagens de usos distintos desse bloco:
Como se vê, um morador optou por fechar completamente o bloco, formando um armário, outro deixou o espaço inteiramente aberto e o utilizou como uma espécie de guarda-roupas. No nosso caso, o bloco é dividido em três: um armário fechado, um suporte para a tv e uma prateleira.
É interessante ver como o arquiteto Joel Campolina se preocupou em deixar esse espaço livre para que os usuários o personalizassem da melhor forma que atendesse suas necessidades particulares.
Zoneamento Territorial
Partindo para o corredor do prédio em que moro, pode-se observar que o grau de personalização varia muito de andar para andar. Alguns moradores customizam a frente de seus apartamentos com plantas e até uma poltrona. Em outros andares (como o meu, por exemplo) não há nenhum tipo de intervenção no corredor, exceto pelos capachos em algumas portas.
Acredito que o estímulo à personalização se dá por dois fatores principalmente: em primeiro lugar, quando um morador enfeita sua fachada, encoraja seu vizinho a fazê-lo. Por outro lado, moradores de apartamentos alugados se preocupam menos com a demarcação de seu espaço, uma vez que veem aquele lugar como uma moradia temporária e se sentem mais como usuários do que como moradores propriamente ditos, seguindo os conceitos de Hertzberger.
Aqui, uma intervenção interessante no espaço seria disponibilizar bancos pelo corredor, de modo a garantir um espaço para se sentar e possivelmente interagir com os demais vizinhos, além de servir como um apoio para colocar as sacolas de supermercado ao procurar a chave na bolsa, por exemplo. Desse modo, o corredor teria uma função mais convidativa, em vez de meramente contemplativa, como pontua Hertzberger.
Demarcações Privadas no Espaço Público
Pegando agora um exemplo da casa onde morei na minha cidade natal, temos um exemplo de expansão da esfera de influência dos moradores em direção à área pública.
A rua em questão ainda possui alguns lotes vagos. Meu pai e mais dois vizinhos que são muito amigos sempre saíam para a rua para conversar, até que um dia resolveram construir um banco em um lote vago que é próximo das três casas.
Desde então, a cada final de semana que chego para visitá-lo, encontro mais intervenções nesse espaço. Os três construíram mais bancos e uma mesa de bambu, uma espécie de móbile para enfeitar o espaço e até batizaram o local como “Buracão”.
O espaço é utilizado quase todos os finais de semana e já foi palco de churrascos, luaus, comemorações diversas e já faz parte da rua. Com isso, as três famílias se empenham em cuidar do espaço. Como afirma Hertzberger, “uma área de rua com a qual os moradores estão envolvidos, onde marcas individuais são criadas por eles próprios, é apropriada conjuntamente e transformada num espaço comunitário”.
Outro exemplo interessante em Conselheiro Lafaiete é o “Projeto Gentileza”, iniciativa de uma associação de moradores da cidade que criou mosaicos em diversos muros da cidade para deixá-la mais alegre.
De fato, os muros foram notícia no jornal da cidade e se tornaram um ponto turístico. É muito comum ver pessoas tirando selfies na frente dessas “obras de gentileza”. Mais um exemplo de como a qualidade do espaço público pode ser aprimorada pela intervenção dos moradores.
Conceito de Obra Pública
Praças e jardins são essenciais para a estética da cidade. Porém, raramente o poder público consegue cuidar de todas elas. Foi pensando nisso que uma farmácia local de Conselheiro Lafaiete resolveu “adotar” o jardim que ficava em frente à sua loja de manipulação. Esse jardim, ainda que localizado na principal avenida da cidade, estava esquecido e mal cuidado, se tornando até um perigo para os pedestres que ali passavam.
A partir do momento em que foi adotado, muitos anos atrás, o jardim nunca mais foi deixado de lado. A própria população se dispôs a cuidar dele: lixos não são mais jogados no local e ninguém mais arranca as flores que ali crescem.
Esse é um exemplo de como pode ser proveitosa a parceria público-privada na manutenção de obras públicas. Nas palavras de Hertzberger, “o segredo é dar aos espaços públicos uma forma tal que a comunidade se sinta pessoalmente responsável por eles, fazendo com que cada membro da comunidade contribua à sua maneira para um ambiente com o qual possa se relacionar e de identificar”.
O Espaço Público como Ambiente Construído
O exemplo dado por Hertzberger das Estações Ferroviárias me faz lembrar o que acontece nos Aeroportos atualmente (ou pelo menos antes do início da pandemia). A intensa movimentação de passageiros implicou em uma concentração de serviços diversos em um só lugar. O Aeroporto de Confins é exemplo disso.
Assim como as Estações Ferroviárias, o Aeroporto de Confins se transformou em um grande espaço público coberto, concentrando grandes franquias de lojas e restaurantes, onde se é possível “fazer compras quando todas as outras lojas estão fechadas, onde se pode trocar dinheiro, telefonar, comprar revistas, usar o toalete, tirar fotos numa cabine, obter informações, pegar um táxi ou fazer uma refeição rápida - ou então uma bastante refinada”.
O Acesso Público ao Espaço Privado
O ambiente das galerias abordado pelo livro se encontra um pouco ultrapassado atualmente. Porém, o conceito de relativização entre espaço externo e interno ainda é atual. Exemplo disso é a entrada principal do Pátio Savassi, em Belo Horizonte. Como está localizado em uma região central, é muito acessado por pedestres. Com isso, a conexão entre a rua e o shopping é gradual: o piso não muda de forma abrupta em relação à calçada e algumas lojas na sua entrada ainda não são cobertas.
Essa manobra arquitetônica “contém o princípio de um novo sistema de acesso no qual a fronteira entre o público e o privado é deslocada e, portanto, parcialmente abolida; em que, pelo menos do ponto de vista espacial, o domínio privado se torna publicamente mais acessível”. Isso faz com que os pedestres se sintam mais à vontade para acessarem o shopping, sem terem a sensação de uma mudança de ambiente muito brusca.
Forma e Interpretação
A Serraria Souza Pinto, em Belo Horizonte foi importante na construção de várias edificações na recém inaugurada capital mineira, por sua localização estratégica, ao lado da Linha Férrea Central do Brasil. Em 1997 foi transformada em espaço cultural e, desde então, é palco de diversos eventos públicos e privados.
A Serraria é um belo exemplo de uma edificação que foi projetada para um objetivo urbano muito específico e posteriormente se metamorfoseou para abrigar necessidades diferentes, mesmo mantendo sua estrutura original.
Polivalência
Uma arquitetura polivalente é aquela que pode ser utilizada de formas diferentes da que foi originalmente concebida pelo arquiteto, sem perder sua identidade, ainda que o espaço sofra alterações temporárias.
Exemplo disso é a quadra poliesportiva do Clube Recreativo Dom Pedro II, em Conselheiro Lafaiete. No dia-a-dia do clube, o espaço abriga quadras de futebol e peteca, além de mesa de ping-pong. Porém, com algumas modificações, como a montagem de um palco e a colocação de enfeites, o espaço abriga grandes shows e eventos culturais ao longo do ano.
Hierarquia
Segundo Hertzberger, é importante usar a arquitetura para tentar minimizar, no âmbito espacial, a hierarquia que já está arraigada na sociedade. Com isso em mente, os espaços de coworking são uma boa forma de reduzir essa estruturação social, uma vez que os usuários desses espaços, independentemente de suas posições nas empresas em que trabalham, se encontram em condições espaciais semelhantes, em um ambiente agradável e despojado.
Belo Horizonte já contempla vários espaços de coworking, a exemplo do localizado no Boulevard Shopping, no bairro Santa Efigênia.
Para finalizar, deixo aqui uma passagem importante do livro de Hertzberger, que todo aspirante a arquiteto deve ter em mente:
“Em nosso trabalho, devemos sempre procurar atingir a qualidade em tantos níveis quanto forem necessários, para criar um ambiente que não sirva exclusivamente a um grupo particular de pessoas, mas a todos. A arquitetura pode ser descrita como convidativa se seu projeto for tão acessível aos marginalizados pela sociedade quanto aos membros do sistema e se pudermos imaginá-la existindo em qualquer contexto cultural imaginável”.


























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